Bombeiros do Pelotão de Leopoldina contam a experiência de participar das buscas em Brumadinho

O VIGILANTE ONLINE | Reportagens Especiais - 19/02/2019 - 19:48 | Atualizado: 21/02/2019 - 19:28

Tenente Cantelle e Sargento Franco participaram da equipe de militares enviada para ajudar nas buscas aos desaparecidos da tragédia.


Os bombeiros militares Tenente Cantelle e Sargento Franco.

Retornaram no dia 14 de fevereiro os militares do 4º Pelotão BM de Leopoldina que participaram das buscas aos desaparecidos na Mina do Córrego do Feijão em Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde no dia 25 de janeiro uma barragem de rejeitos da mineradora Vale se rompeu. Na ocasião, um mar de lama foi liberado e deixou um rastro de destruição e morte. 

O comandante do 4º Pelotão BM de Leopoldina, Tenente Guilherme Cantelle (D), e o Sargento Rondinelly Franco, viajaram para Brumadinho no dia 7 de fevereiro, juntamente com militares do Terceiro Comando Operacional (3º COB), que abrange em sua articulação operacional militares de Leopoldina, Além Paraíba, Muriaé, Viçosa, Ubá, Juiz de Fora, Barbacena, Conselheiro Lafaiete e Congonhas. 

Em entrevista concedida ao Jornal O Vigilante Online, os dois militares falaram a respeito de sua participação nas ações desenvolvidas pelo Corpo de Bombeiros em Brumadinho. 

A primeira sensação que tiveram ao chegarem na comunidade do Córrego do Feijão, atingida pela lama da barragem, foi de acolhimento e organização, conforme relato do Tenente Cantelle. “Chegamos por volta das 16h00 horas, conhecemos o local de operações e recebemos o serviço das equipes que estavam saindo”, explicou. “O que a gente percebeu foi o acolhimento e a organização. Nós estávamos nas dependências de uma paróquia, cedidas pelo próprio padre da comunidade.. Havia vários voluntários da comunidade, pessoas que recolhiam as roupas sujas dos militares e as devolviam no outro dia, ensacadas e com mensagens de motivação. Vimos no local um controle aéreo, uma base climatológica, militares de várias forças cooperando, cada um sabendo da sua função (Polícia Civil, Polícia Militar, Bombeiro Militar, Bombeiros de outros estados, Polícia Federal)”, afirmou o Tenente. 

Sobre a rotina de trabalho diária em Brumadinho, o Tenente Cantelle explicou que a alvorada no local era realizada às 05h30, quando as equipes começavam a levantar. “De 06h00 às 06h30 era o nosso horário do café da manhã e daí por diante nós tínhamos a instrução inicial (briefing) com o Planejamento das Operações e dali cada equipe era lançada para o seu ponto de trabalho, que era uma delimitação da área atingida pela lama.”


Segundo o militar, a Zona Quente, que foi a área atingida pela lama da barragem, foi dividida em várias frentes de trabalho. Áreas de remanso - onde o rejeito chegou com menor intensidade e se espraiou, área administrativa da empresa, área de Portaria e outras áreas que com o desenrolar da operação tornavam-se de interesse. “O trabalho era feito até por volta das 18h30”, complementou. 





Outro militar do Pelotão dos Bombeiros de Leopoldina que participou da missão na comunidade do Córrego do Feijão foi o Sargento Rondinelly Franco. “Tivemos contato direto com os populares da comunidade e isso acabou passando pra nós esse sentimento de perdas. Apesar de tudo, nós percebemos que eles não perderam a fé e ainda tiveram como nos motivar. Eu mesmo recebi uma carta de uma criança de 7 anos e isso nos motivou muito a dar continuidade no nosso serviço”, declarou. 


“Após a Instrução nós fazíamos as nossas orações matinais e depois nos deslocávamos para o campo. Recebi a carta dessa criança na parte da manhã. Nos entregaram envelopes”, disse o Sargento Franco. “Isso me tocou. Nós somos profissionais, mas não deixamos de nos sensibilizar com a situação, e isso nos motivou mais ainda a realizar nosso trabalho com maior excelência.” 


As cartas escritas por crianças foram recebidas com emoção pelo Tenente Cantelle e Sargento Franco, em Brumadinho. 

O Tenente Cantele contou que as pessoas que faziam a limpeza de farda eram incríveis. “Eles nos agradeciam quando entregávamos a farda, e aí eu dizia: 'Nós é que agradecemos'”. Para o Tenente, aquele era um encontro de gratidão, ao verem pessoas totalmente empenhadas na causa daquela comunidade”. "Saber que no outro dia você teria uma roupa limpa, cheirosa, ensacada, elevava o moral da tropa enormemente. Era espetacular”, admitiu sorrindo o comandante.

Uma bandeira nacional foi encontrada coberta de lama em meio aos rejeitos liberados pelo rompimento da barragem.

A missão em Brumadinho, apesar de todo o sofrimento, deixa um legado de experiência para os militares que participaram das operações de busca e resgate em condições adversas. Cantelle reconhece que “ver essa integração com todas as forças de segurança pública, esse contato com a comunidade, com os voluntários que nos apoiaram enormemente, foi de suma importância para o nosso profissionalismo.” 
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Um aspecto comentado pelo Sargento Franco citou o carinho e o contato dos operadores de máquinas. “Muitos perderam um ente querido. Nós tínhamos contato diário com eles. Ficamos emocionados, mas isso também nos motivou a nos empenharmos cada vez mais no nosso serviço. Eles perderam tudo, mas não perderam a fé”, argumentou o militar.



Manifestando a esperança que sejam realizadas medidas preventivas para que eventos dessa natureza não aconteçam novamente, o Sargento Franco concluiu: “Deixo claro que na integração dos órgãos públicos, unidos somos mais fortes, então temos que ser mais unidos, órgãos públicos e população.” 
 
Ao final da entrevista, o Tenente Guilherme Cantelle avaliou sua participação na missão em Brumadinho como um grande aprendizado para ele, destacando a possibilidade de perceber o sistema de comando de operações em Brumadinho, a integração de forças de múltiplas agências, tudo visando o bem maior, além da questão da comunidade, que também apoia muito. “Esse serviço de excelência que está sendo prestado está sendo multifatorial. Com isso eu percebo que o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais vai criar um grande know-how para enfrentar esse tipo de desastre, seja pela experiência de Mariana, seja pela experiência de Brumadinho", finalizou.

Fonte: Jornal O Vigilante




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