AVÔHAI



 
Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

Cazuza

O andar era lento e arrastado, apoiando em sua bengala mística o Velho caminhava, seu olhar parecia distante, parecia atravessar o mundo e ir até o desconhecido. Ele sempre teve um ar de sabedoria, como Salomão e Thot*, parecia que tudo sabia e que a tudo conhecia. De repente, o Velho parava, sempre trazendo um ensinamento sábio, uma história mística, uma premonição, depois tirava sua flauta de taquara, enfeitada por fitas brilhantes, da cintura e começava a tocar... e eu ainda ouço sua música.

O Velho era meu avô, Geraldo Rubim (foto), talentoso na arte de viver, doutor de grande conhecimento, formado na universidade da vida, mãos fortes para empunhar a enxada ou a foice, para empurrar seu carrinho de picolé e suaves para acariciar as belas mulheres (seu vicio e seu delírio), sua flauta de taquara ou sua sanfona.

Meu avô, o "Véi", como eu o chamava, não era um herói,  um santo, um mártir, pelo contrário era um anti-herói, um titã, um Prometeu enlouquecido usando o disfarce de um matuto bóia-fria e vendedor de picolé, capaz de compreender pela sua inteligência não somente o mundo visível, mas ainda os princípios e a essência de todas as coisas. Andava devagar e pensava rápido, tinha coragem e medo, era capaz das maiores bondades e das maiores maldades, enfim, era um homem. 

E esse homem amava a vida, encontrava sentido nela e se entregava a suas paixões, talvez por isso, com uma força incrível, despertava imensas paixões como de minha santa avó Sebastiana, que o idolatrava apesar de sua infidelidade confessa e como a minha paixão, de neto, de irmão, de fã, de mistério.
Quando encontrava o Velho sentia como se tivéssemos surgidos juntos, nossos espíritos saíram do mesmo lugar, espécie de elo perdido, aglutinando tudo, de trás para a frente e da frente para trás. O Velho carregava além de sua bengala, feita de madeira tosca como um cajado, e sua flauta de bambu o ar do enigma de suas histórias e de suas musicas e eu sempre me fascinava com esse seu Poder.

Meu avô contava suas historias e ao mesmo tempo em que ele descrevia certos acontecimentos, convidava as pessoas a participarem de suas viagens, em razão do clima místico do qual ele se encontrava impregnado: a figura do velho sábio, o ancião, que carregava tantos símbolos e significados místicos do povo pobre das fazendas de nossa região aonde o menino, o rapaz e o homem Geraldo viveu e aprendeu a decifrar e utilizar dos mistérios e da força da natureza.

Católico, espírita , macumbeiro (termo que ele usava) e evangélico, meu avô visitava todas as religiões e todas as crenças, levava elas consigo e tinha uma fé inabalável em Deus. Meu primo Marcelo o chamava de Pajé, e realmente o Velho era um indivíduo responsável pela condução de um ritualismo mágico,  possuía a autoridade xamanística de invocar e controlar coisas místicas, tudo que fazia tinha uma ação encantatória, com poderes oraculares, vaticinantes e curativos. 

E quando duvidávamos dele e de sua "pajelança" ele a provava: certa vez o Morro do Cruzeiro estava em chamas, o fogo estava alto, e castigava a mata seca, eu e meu primo desafiamos o Velho e sua fama, que trazia da Fazenda da Pedra, de apagador de fogo. Segundo ele bastava uma reza, com fé, a Santa Barbara para o fogo apagar. Desafiado, lá foi o Velho, andar macio, devagar, se concentrando, entrando em transe, para a varanda dos fundos da casa de meus pais, e lá bateu sua bengala de madeira grosseira no chão, se apoiou nela com as duas mãos e se colocou a rezar para Santa Barbara apagar o fogo... Por mais que eu não quisesse acreditar o fogo começou a diminuir e ao fim da oração se apagou, restando apenas pequenos focos. O Velho não se exaltou com o fato, apenas tirou o boné, olhou para o céu, fez o nome do pai e voltou para sala, calmamente, humildemente, misticamente. O Velho não se gabou, vitorioso no desafio, apenas provou que não tinha apenas o ar místico, era místico. Afinal, " esse mundo tem coisa" ele dizia...

Meu fascínio pelo Velho vinha dessa capacidade de ter sabedoria mesmo sem ter oportunidades ou facilidades, filho de um italiano pobre e de uma descendente de portugueses, foi camponês, vendedor de picolé, se orgulhava de jamais ter votado na Arena, era MDB, era Flamengo, tocava instrumentos musicais e os fazia, amava as mulheres, assim no plural, talvez uma Laura em especial, e se deixava amar por elas.

Homem de estatura pequena se fez gigante por sua vida e seu caminhar, foi a pessoa mais livre que conheci, fez tudo que quis, como quis, quando quis, sempre teve leitura do momento, de sua condição e da alma das pessoas, vivendo intensamente.

Seu lado mágico se mostrou para mim mesmo quando o Velho partiu, aos 94 anos, e eu estava em Brasília, para uma revisão médica, ele se foi no dia em que eu voltava, era fascinado no Missionário RR Soares, que ele chamava de "Missionari", pois naquele dia triste para mim, viajei no mesmo avião do Missionário, o que para mim foi mais um sinal do Velho, o seu adeus mágico.

Sempre que ouço a mística Avôhai - avô/pai - de Zé Ramalho, musica que lhe foi revelada e que carrega um ar de enigma e mistério, lembro-me do Velho Geraldo. Na interpretação de Zé Ramalho, o “avôhai” é a sabedoria que consegue passar por gerações, seja de avô para pai, pai para filho, ou mesmo avô para filho e sua letra define bem quem foi meu avô: "Um velho cruza a soleira / De botas longas, de barbas longas / De ouro o brilho do seu colar / Na laje fria onde coarava / Sua camisa e seu alforje / De caçador / Oh meu velho e invisível / Avôhai / Oh meu velho e indivisível / Avôhai / Neblina turva e brilhante / Em meu cérebro, coágulos de sol / Amanita matutina / E que transparente cortina / Ao meu redor / Se eu disser / Que é mei sabido / Você diz que é bem pior / E pior do que planeta / Quando perde o girassol / É o terço de brilhante / Nos dedos de minha avó / E nunca mais eu tive medo / Da porteira / Nem também da companheira / Que nunca dormia só / Avôhai! / Avôhai! / Avôhai! / O brejo cruza a poeira / De fato existe / Um tom mais leve / Na palidez desse pessoal / Pares de olhos tão profundos / Que amargam as pessoas / Que fitar / Mas que bebem sua vida / Sua alma na altura que mandar / São os olhos, são as asas / Cabelos de avôhai / Na pedra de turmalina / E no terreiro da usina / Eu me criei / Voava de madrugada / E na cratera condenada / Eu me calei / E se eu calei foi de tristeza / Você cala por calar / E calado vai ficando / Só fala quando eu mandar / Rebuscando a consciência / Com medo de viajar / Até o meio da cabeça do cometa / Girando na carrapeta / No jogo de improvisar / Entrecortando / Eu sigo dentro a linha reta / Eu tenho a palavra certa / Pra doutor não reclamar / Avôhai! Avôhai! / Avôhai! Avôhai!”


Como mistério e magia sempre cercaram o Velho mesmo após sua partida sua lembrança me traz algo místico: a ultima vez que o vi no leito do hospital o Velho disse que a primeira coisa que faria quando se levantasse da cama era dançar...o Velho não se levantou mais, ele amava dançar...alguns anos depois Bruno meu filho nasce e antes de que fizesse qualquer coisa, Bruno dançou....será o Velho dançando com Bruno ou será o Velho dançando de novo?....nunca saberei, mas sinto em Bruno a mesma mágica de Amor que sentia em meu avô.

Avôhai!  Voe em paz! Pois a de cima mói a canjica a de baixo mói o fubá, piso na tábua de cima e faço a de baixo dobrar....

*Thot - deus egípcio da Sabedoria

 




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