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VOCÊ NÃO ME CONHECE

Por Publio Cunha | Artigo - 05/09/2018 - 17:01 | Atualizado: 11/09/2018 - 09:13

Vixe Bichinho, tô ficando com uma gastura da “porra”, era nossa personagem começando a se contorcer de raiva, dando “pinta” que a confusão começou a dar cheiro. 

Nome: Francisca do Espírito Santo da Macaxeira, mas conhecida mesmo por “Chica Peixeira”, Mascote de profissão, bordadeira por vocação, nossa amiga se notabilizou pela capacidade de exercer o comércio ambulante em seus vários matizes, não tinha quem não conhecesse e apreciasse  os produtos de Chica nas grandes feiras do Nordeste, Campina Grande na Paraíba e a feira de Caruaru em Pernambuco, todos se rendiam a qualidade de seus produtos, principalmente os produtos de embelezamento, maquiagens, vestidos bolsas, sapatos e assim vai, dizem que até que quando Chica chegava era o fim das Muié feia, por que até as desajeitadas ficavam jeitosas, a mascate era mesmo porreta.

Chica, além da destreza e simpatia  no trato com a  clientela, tinha como estratégia no incentivo da venda de seus produtos, a concessão de um “prazinho”, de um parcelamentozinho”, na verdadeira acepção da palavra, de um “fiadinho”, que ela facultava aos clientes mais chegados, aqueles que correspondiam a sua mais inteira confiança na pontualidade dos pagamentos, e que “graças e Deus não eram poucos, e como ela mesmo dizia: “Comigo é trato no ‘fio do bigode’ ou vai ser no ‘fio da peixeira’”, e assim,  transcorria sem percalços,  a sua trajetória sem conhecer o que era a tal palavra “inadimplência”.

Empreendedora que só, Chica não se contentava com a abrangência de seu comércio, precisava alçar novos voos, expandir seus negócios, queria por que queria consolidar a sua indiscutível carreira de mascate, quando concluiu, num “approach” geográfico, que precisava dar uma guinada para o Sul, nada abalava a sua auto-confiança, corroborava-se a este o fato de ter encontrado, na sua logística de atuação, a sua alma gêmea, radicado naquela região e o inabalável reconhecimento  de sua clientela: “Onde Chica põe a mão vira ouro”, definitivamente, a mascate era fadada ao sucesso.

Esbanjando a sua peculiar alegria, Chica não se cabia de entusiasmo, e já profetizando o seu sucesso, exclamava: “Agora é que vou ganhar dinheiro”, já almejando o alcance de suas vendas através do comércio virtual, dominando essas técnicas de “marketing porta porta”, ninguém teria tanta projeção nas redes socais quanto ela,  com um sistema de entrega de mercadorias de fazer inveja a qualquer loja virtual, sem contudo, esquecer os seus princípios, o “fio do bigode” deveria prevalecer em qualquer negociação.

E assim foi ou deveria ter sido, até que no aspecto da saída de produtos, o negócio ia muito bem, a clientela estava empolgadíssima com os produtos de Chica, só que a contrapartida dos recebimentos a coisa tavameio que capengando, pontualidade era quase sinônimo de atraso, só “a duras penas”, é que Chica começou a entender que o “fiado” daqui, não funcionava com a mesma retidão do “fiado de lá”, e isso vinha angustiando Chica, até o dia, que mais parecia uma tragédia anunciada, Chica conhece Joaquina Calotinha, consumidora voraz, compulsiva até o último fio de cabelo, e cujo o nome já demonstrava seu desembaraço, Joaquina Calotinha, não pestanejou diante do acolhimento e da boa fé da mascate, comprou um “quinhão” dos mais variados produtos, com a promessa de pagar no “dia 30”.

Passou-se o prazo acertado, e mesmo “roendo as unhas”, Chica ainda esperou mais uns cinco dias e nada, nem sinal de vida de Calotinha, cheiro de pagamento passava longe, e ai é que botando “fogo pelas ventas”, Chica resolver ter com a devedora:
E ai Joaquina, vim receber minha paga....

E Calotinha no auge das desfaçatez não perdeu tempo: “Você dever estar enganada, não foi esse o combinado”, declarou Calotinha, diante de uma Chica com cara de poucos amigos.

Como não? Retrucou Chica, você tá ficando doida?

Tô não, asseverou Calotinha, eu disse que ia pagar dia 30, mas não disse de que mês...

Foi a senha pra acender o rastilho, Chica, exalando indignação com a afronta, mandou a “letra”: “Tu não se abeste comigo, VOCÊ NÃO ME CONHECE”, a confusão tava armada.

Joaquina Calotinha, num tom arrogante e de absoluta indiferença, continuou desdenhando de Chica: Paciência, mas não tenho o dinheiro agora, se quiser volte outra hora..

Ai, o pavio de Chica encurtou de vez, soltando “cobras e lagartos”, Chica escrachou Calotinha de todo jeito: “trubufu, coisa ruim, quem faz esse tipo de coisa é por que não sabe o que é o amor, sua mal-amada, se você tivesse no coração 1% do amor que eu sinto pelo meu Rodado, você não agiria dessa forma, e vou logo avisando que não estou pra brincadeira, só saio daqui com o meu ‘dindim’ no bolso...”

Joaquina Calotinha, assustada, vendo que a “chapa tinha esquentado de vez”, ainda tentou argumentar, sendo prontamente replicada por Chica, “Calada, ou a ‘jiripoca’ vai piar é agora”.

Não acenando outro desfecho, Calotinha juntou centavo a centavo, inclusive as migalhas do cofrinho para pagar a quantia devida a Chica pela compra dos produtos, não sem antes, advertir a mascate que era a última vez que compraria com ela, e  Chica não se fez de rogada, enquadrando a desafeta de “bate-pronto”: “E tu acha que eu quero vender pra gente ruim de paga como você, se enxerga, Satanás, e vou lhe avisar mais uma coisinha, se me ver na rua, atravesse pro outro lado, por ora, é só um aviso.”

Chica Peixeira era assim, positiva em suas ações, palavra com ela era veredicto, na sua irrepreensível de conduta, não poupou nem o Rodado, seu grande amor, em certa ocasião pegou umas peças em consignação com Chica para mostrar para uns conhecidos, que compraram com promessa de pagamento, mas não pagavam, e ai não deu outra, Chica encostou o amado na parede: “Tem dois dias pra me pagar ou lhe esfolo num ‘pau de sebo’”, e este não pensou 02 vezes, tirou do próprio bolso, para zerar a pendência e apaziguar a situação, não queria correr riscos.

Não se sabem os caminhos religiosos que Chica percorreu, mas uma coisa era certa, na hora de receber dos devedores contumazes e muitas vezes, atrevidos, o “bicho pegava”, baixava uma “pomba-gira”, que nem polícia chegava perto, conta-se na historiografia oficial, que em certa ocasião, Lili Carabina e Bibi Perigosa estiveram na Região para resolver uns embaraços, e iam aproveitar para comprar e uns apetrechos com Chica, obviamente sem compromisso de pagamento, na hora que souberam da fama da mascate, não tiveram ousadia, desistiram do fiado, talvez com medo de acabarem sentadas em algum formigueiro.

Outro dia falei com a Patroa, aproveite e compre umas peças com a Chica, produto bom e barato, quando me lembrei que o Estado anda atrasando por demais o pagamento do funcionalismo, preferi juntar uns trocados e assim que puder comprar à vista, afinal com Chica Peixeira não se brinca e não se deve, e tome tento.

Publio Cunha é escritor, poeta e articulista.
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