A PAREDE

Por Alessandro Rubim | Artigo - 21/10/2018 - 18:14 | Atualizado: 27/10/2018 - 23:23



Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me? (...)
Em vão me tento explicar, os muros são surdos...
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Uma flor nasceu na rua!
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


 (Carlos Drummond de Andrade)

A manhã cinzenta de sábado parece o prenuncio de tempos sombrios, Bruno distraído e alegre não se importa com dia feio, muito novo para perceber o clima, o sinal se abre e seguimos nosso passeio, olho para o Maracanã e vejo um anúncio do show da turnê "Us + Them", de Roger Waters, impossível nesse momento não pensar na obra do artista no PinK Floyd.

Lembrei de minha adolescência e do momento que escutei pela primeira vez os acordes da banda e como sua sonoridade psicodélica e progressiva mexeu comigo. A poesia de Roger Waters é impecável, clara e real. Waters consegue penetrar na alma humana e traduzir os sentimentos humanos de maneira simples, utilizando metáforas universais. E Waters faz isso não de forma alienada, mas de forma consciente, se posicionando numa critica sócio-política engajada e coerente.

Por umas dessas coincidências sem explicação no radio do carro começa a tocar Another Brick In The Wall I, II, III (Outro Tijolo no Muro). Bruno não fica insensível a música e se balança. Contagiante e vibrante, a melodia da música, nos acelera, instiga.... faz pensar...

A música que toca no radio é do álbum do Pink Floyd, The Wall (A Parede) de 1979 e nele Waters lança sobre a sociedade um olhar crítico, fala da mente humana, das relações interpessoais e de sociedade e política. E vou me explicando a você, caro leitor, porque acredito ser impossível ouvir Pink Floyd sem entender a ideologia que inspirou as viagens sonoras ousadas e excitantes da banda, estudar a sua história e interpretação de seus textos se faz necessário e pode ser uma luz em tempo de ódio e escuridão que nos remetem a um passado triste de tortura e morte.
 

Bruno ainda se balança, dança e acha curioso o barulho do helicóptero na música, eu explico a ele o que é o barulho, impossível não pensar neste momento no contexto do álbum tão atual para nossa realidade.

The Wall conta a história de um astro do rock, chamado Pink, que sucumbe à loucura devido aos traumas da perda do pai na Segunda Guerra Mundial (como Waters que perdeu o pai lutando contra os nazistas), se tornando, em seu delírio, um líder totalitarista fascista. Tudo isso é misturado num drama de proporções megalomaníacas.

A metáfora “the wall” tem o sentido de um muro (ou parede) simbólico que separa o personagem Pink do mundo exterior. É interessante perceber que o muro é construído e derrubado na história que tem contornos de agressividade, delírios e manipulação de massas.

Impressionante como Waters percebeu a criação de um "muro" separando as pessoas da realidade que lhe cercam, muro este provocado pela imensidão de ideias, pelo alienamento da multidão e pelo ego de cada um, mais interessados em seus problemas pessoais do que nos da coletividade - talvez uma profecia porque hoje o processo foi acelerado pelas redes sociais, fakenews e youtubers que posam sua sabedoria de almanaque deturpando a história e os fatos e convencendo milhares que por preguiça preferem seguir a suposta lógica a estudar detidamente os fatos diretamente nas fontes citadas.

Importante para mim e sempre me chamou atenção à forma como esse muro é construído, como Pink de um rock star se torna em seu delírio um líder fascista. Sempre me perguntei como essa transformação ocorria, como ela ocorre nas pessoas? Acredito que sem perceber, como Pink as pessoas vão construindo seus muros, suas paredes. Como ele são conduzidas a isso por fatores externos a eles: decepções, perdas, estímulos de manipulação. Ai nasce o líder totalitário dentro dessas pessoas, sedentos de ódio, liberando o pior de cada um.

Mas esse líder interno, como o de Pink, sozinho é fraco, vazio, covarde e ele precisa de um líder maior, que o permita liberar essa face mais terrível, cruel, violenta e louca. Seguir esse líder e alçá-lo ao poder é o desejo para que possam se sentir justificados em subjugar aqueles que lhes parecem estranhos, inferiores, fracos, dispensáveis. Por mais insano que possa parecer esse líder totalitário interno de cada um, para construir seu muro, utiliza como tijolo até mesmo palavras sagradas de amor que são manipuladas. É a partir de cada acontecimento negativo, como Pink, os seguidores vão construindo o seu muro, que, gradativamente, os isolará do mundo externo.

E me permito pensar que mundo o líder totalitário Pink vai criando com sua legião zumbi de seguidores: o primeiro passo é destruir, exterminar, aniquilar, metralhar qualquer forma de resistência ao líder, tornar seus seguidores padronizados é o segundo passo, incentivar nesses seguidores seus sentimentos e preconceitos mais primitivos de violência e ódio pelo diferente, torná-los seres automatizadas e não pensantes, produzidos em larga escala e prontas para a manipulação do Estado.

Contudo, o líder Pink é louco e delirante e em algum momento a mira de suas armas se dirigirá para seus próprios seguidores, afinal, numa ditadura totalitária fascista apenas o líder supremo pode se sentir seguro dentro de seu muro. A morte não será apenas privilégio dos pobres, dos diferentes, dos que escapam da padronização, dos inimigos reais ou imaginários, ela virá para todos!

Nesse momento me ocorre, que cimento permite a construção desse muro? Esse muro é cimentado pelo medo, pelo ódio, pelo preconceito, pela moral viciada, pela ignorância cultural e humana. Nesse cenário o delirante Pink lidera e seus seguidores sedentos e cegos o seguem de arma na mão com seus símbolos e loucura. O rastro deles é morte, dor, tortura, fome, abandono, inimizade e um ódio generalizado e inexplicável. A covardia é seu lema, pois não enfrentam de igual para igual, mas massacram minorias, sufocam os frágeis, tendo no íntimo medo daqueles cuja alma não se curva e que sabem ser mais difícil dominar.

Vemos isso claramente na música “Another Brick in the Wall (Part III)”, onde percebemos a reação de Pink, que recorre mais uma vez à idéia delirante do muro que o protegeria de qualquer problema que aparecesse, só assim ele era capaz de reagir. Pink resolve deixar o mundo, isto é, ele abandona a realidade para viver a sua loucura. Ele ergue totalmente o muro que o separa da realidade externa, e se refugia em seu mundo interior, mais seguro. Trata-se, portanto, da morte simbólica do ‘primeiro’ Pink, o que, posteriormente, permite o surgimento de uma nova faceta de sua personalidade: a totalitária.

E assim que sua loucura se expande e o muro está construído, ele inicia uma sessão de delação pública, ao humilhar os seguidores com todos os preconceitos típicos dos regimes fascistas e nazistas, condenando publicamente os homossexuais, judeus, negros, pobres, drogados, desejando fuzilá-los em sua parede. Pink abandona sua verdadeira identidade, vulnerável, fracassada, e assume a identidade de um líder totalitarista, o que constitui o seu delírio megalomaníaco. Na verdade, Pink acaba por se identificar com aqueles que mataram o seu pai na guerra, os ‘vilões’. É um sinal do desespero real de um sujeito desequilibrado, que entra numa paranóia. Também é uma crítica de Roger Waters aos regimes totalitaristas, que se constituíram como uma verdadeira paranóia coletiva. Assim, ele (Pink) e seus seguidores se viam com forças suficientes para julgar os demais, quando, na verdade, estavam projetando na massa o seu próprio fracasso pessoal.

Essa paranóia só deixou até hoje rastro de morte, de dor e de guerra, como diz a própria letra de “Another Brick in the Wall (Part III)”: Eu não preciso de braços à minha volta. E não preciso de drogas para me acalmar; Eu vi a profecia. Não pense que eu preciso de alguma coisa. Não! Não pense que vou precisar de alguma coisa qualquer. Em suma, tudo era apenas tijolos no muro; Em suma, todos vocês eram apenas tijolos no muro...

No fim, depois de toda a destruição causada pelo regime totalitarista Pink passa por um autojulgamento, o juiz o sentencia à pena máxima: expor-se perante os outros, e manda derrubar o muro, que explode. Transmite-se a idéia de superação, enfrentamento dos medos e suas barreiras, simbolizados pelo muro. Trata-se de um cair-se em si mesmo para se ver na realidade: o mesmo que se conscientizar sobre o mundo, dominando-o para não ser dominado.

Importante dizer que a história de Pink não foi inventada por Roger Waters, ele conseguiu criar uma metáfora de grande impacto artístico para sua mais profunda dor. Transformou sua dor e a de milhões de vitimas do fascismo em obra de arte. Na música a superação da dor e do líder Pink, que defende as armas e a violência, ocorre dentro de sua própria consciência, na vida real o poder dos Pinks custa a vida de milhões, mas não só o líder sai com as mãos manchadas de sangue e sim todos os seus seguidores, os pequenos Pinks que são responsáveis e co-autores de seu regime de morte e aniquilação.

Bruno continua a curtir a música, estamos quase na Quinta da Boa Vista, do lado de fora surge à cidade, com suas contradições e sua beleza, livre, onde num mesmo espaço todas e todos podem conviver, em paz, sem Pinks. Nesse momento ao olhar crianças lindas de uma comunidade carente que visitam o parque penso na questão que abre o disco The Wall : Não é aqui que nós entramos?

PS: prezado leitor esse não é um texto de ficção e qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Dedico esse texto a memória de todas as vitimas do Holocausto Nazista e aos que lutam pela democracia no Brasil. Coragem!




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